segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

No momento reles... tantas vezes vil...


Poema em Linha Reta/Fernando Pessoa

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Poesia.

Minha gente, durante o mês inteiro de dezembro, tinha um professor de português que foi meu "anjo da guarda". Anjo da guarda por causa do Natal, de brincadeiras de "amigo invisível" e etc, etc, etc... o cara gosta de escrever poesia. Sabendo que era meu anjo, escreveu uma poesia para minha pessoa. A festa de confraternização do trabalho rolou e no finalzinho da bagunça, ele timidamente, me deu a poesia. Ei-la:


"Proteger essa pessoa
foi muito gratificante...
É uma pessoa educada
Inteligente e bonita.
Adoro o seu jeito de andar
Adoro a sua maneira de falar.
É uma pessoa séria e brincalhona,
Silenciosa e barulhenta
É Maria, é Madalena
É linda, é morena
Tem um olhar cativante
É uma pessoa atenciosa
Meiga, 1,75 cm de elegância
cheia de vigor e energia
E com toda essa magia
Ela leciona Sociologia
Com muito humor e alegria
Seu nome é: Anna Maria!"

Elias.



Bonitinho né? Legal. Guardei e valorizei.

Bom Natal para todos!

domingo, 20 de dezembro de 2009

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Boa música. Índigo Blues/Blues da Amazônia. Se deliciem...

sábado, 12 de dezembro de 2009

Ilha das Flores

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"Iha das Flores" é surpreendente. Mas além de surpreendente, é chocante e cruel. A crueldade e a tristeza vista no documentário nada mais é do que o retrato do cotidiano capitalista. No documentário, além do Ser Humano ser menos valorizado que os tomates, chega a ser "menor" do que os porcos. Todas as vezes que eu assisto e percebo as cenas, fica impossível conter as lágrimas.
Infelizmente o "Homem" que possui o telencéfalo "altamente desenvolvido" e polegar opositor, ainda não conseguiu desenvolver algo mais valioso que existe no corpo humano, o coração.
Desde o século XV, o "Homem" possuidor do telencefálo "altamente desenvolvido" começou a "pensar" estratégias de abarcar o mundo. A partir de então começou o projeto. Daí vieram as revoluções tecnológicas, as expansões pelo mundo, a troca de ideias, a globalização, a mundialização e descobertas de "novos" povos, encontro entre culturas, indústrias, fábricas, dinheiro, ganância e poder. Mas atrás de tudo isso que NÓS todos consideramos altamente valioso, veio a miséria, a pobreza, a fome, as mortes, as guerras, o desamor, o egoísmo e a tristeza.
É muito impressionante a capacidade que o Ser Humano tem de passar por cima dos outros em busca de dinheiro. Mas esquecem que todos morreremos um dia e seremos comidos por vermes debaixo da terra. E tudo isso que foi contruído fica. E o que deveria se construir, não fica porque não se construiu: amor, solidariedade, amizade, união, troca, doação...
Pode paracer banal tais palavras, mas quem já passou fome, aperto, ou viveu na merda, como disse o inteligentíssimo nosso presidente Lula dias atrás, sabe do que eu falo.
Nunca passei fome e muito menos necessidade, mas amo o Ser Humano. E odeio qualquer tipo de opressão. QUALQUER TIPO. Seja contra pobre, negro, gay, índio e etc. No dia que o imbecil do "Homem" soube usar o telencéfalo "altamente desenvolvido", provavelmente ele tirará o polegar opositor do próprio rabo e verá que um mundo melhor só existirá se deixarmos a matéria de lado e pensarmos mais na essência.

Assistam o filme, chorem, usem a sensibilidade e se surpreendam. Se não gostarem, meus seguidores também têm o direito. O que mais importa para mim é que assistam e reflitam sobre suas ações cotidianas. Saibamos usar muito mais o que temos de tão desenvolvido no nosso corpo de mãos dadas com o coração.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Conto: "O FILHO DA FILHA DO BICHO-PREGUIÇA"



O bicho-preguiça estava parado quieto, trepado no galho da árvore. Sua filha estava trepada quieta, parada num outro galho. De repente, ela disse:

- Pai, estou sentindo uma dorzinha esquisita dentro na barriga. Acho que vou parir logo.

Tempos depois, o bicho-preguiça desceu da árvore e ficou pensando. Mais tarde, saiu andando devagar, quase parando. Foi procurar uma parteira.

Foi, foi, foi. Andou, andou, andou. Seguiu, seguiu, seguiu.

No meio da viagem, o bicho-preguiça tropeçou numa pedra e machucou o dedinho do pé. Ficou nervoso:

- E seguiu, seguiu, seguiu. Andou, andou, andou. E foi, foi, foi.

Acabou chegando na casa da parteira. Passou um tempo, o bicho-preguiça bateu na porta e disse:

- Dona parteira, é urgente. Vamos lá em casa que o filho da minha fiha está pra nascer.

A parteira era bicho-preguiça também. Dias depois, abriu a porta devagar e respondeu:

- Calma aí que eu estou indo!

O tempo correu e bem mais tarde os dois partiram.

Foram indo, foram indo, foram indo. Foram seguindo, foram seguindo, foram seguindo. Foram andando, foram andando, foram andando.

No fim, quando chegaram de volta, secutaram uma barulheira. Eram os filhos do filho da filha do bicho-preguiça brincando devagarinho no terreiro.


(AZEVEDO, Ricardo, Contos de Bichos do mato, Ática, 2005)




Valeu Luiz!!!! Beijo no teu coração!

domingo, 6 de dezembro de 2009

O mais importante...

... é prezar minha saúde mental. Amo muito mais meu equilíbrio do que qualquer outra coisa.
Ultimamente venho me observando e tento tirar algumas conclusões do que vejo em mim. Por mais que eu esteja mais voltada para emoção, sensação e busca, felizmente consigo equilibrar as coisas. Observar isso me fez um bem enorme. Posso dizer que tenho uma ótima percepção das coisas. Minha percepção é tão boa que isso me assusta, pois as vezes vejo "coisas" que não me agradam. Melhor do que ser eternamente ingênua diante de inúmeras situações na vida.
Ver coisas que não me agradam abre meus olhos e me faz perceber o quanto gosto mais de mim do que qualquer outra coisa nesse mundo.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Sou feliz porque...

não tenho a mínima dificuldade de dizer o que penso, o que sinto e melhor, sei pedir desculpas. Isso é muito bom... Me sinto muito bem...

Reprodução de foto exposta numa exposição no "Museu do índio" no complexo do Ver-o-Peso. By Eu.

Eu penso demais na vida...




Racionalizar, pensar, refletir e por vezes, não agir. Não sei porque, conscientemente, o que faz eu ser uma pessoa tão reflexiva e racional. Mas, estou mudando e agindo. Estou tendo mais "sensação". Pensar faz bem, mas o excesso e o exagero acaba com a naturalizada da vida. Eu acho. Isso é uma história. A outra é:

Estou tão feliz! Hoje fiz o que faço todos os anos: fiz a doação das minhas 5 cestas para famílias carentes que moram numa grande periferia daqui de Belém, Águas Lindas. Infelizmente as águas desse local são lindas apenas no nome. Como dói ver tanta gente (gente de verdade, de carne e osso...) passando fome. Pessoas paupérrimas! Isso faz com que eu tenha ainda mais revolta com o "Poder" Público. Não é à toa que sou cientista social. Obviamente que não mudarei o mundo e nem quero isso, mas tenho certeza que as minhas pequeninas ações colocam um sorriso gostoso no rosto de cada um. Agradeço por TER para PODER ajudar. EU AMO MUITO O SER HUMANO. NÃO É À TOA QUE SOU ANTROPÓLOGA, TAMBÉM. SERÁ QUE É BOM OU RUIM??


Boa quinta para meus seguidores! Beijo no coração de todos!

Pra pensar:

"Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é o meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e com os pés
E com o nariz e a boca

Pensar uma flor é vê-la e cheira-lá
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando um dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz."

Fernando Pessoa

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

"O museu de curiosidades interativas da região Amazônica". Ver com as todas as imagens em: http://www.revistamuseu.com.br/artigos/art_.asp?id=16829

O museu de curiosidades interativas da região Amazônica



Anna Maria Alves Linhares *

O Museu do Marajó está localizado em uma pequena cidade chamada Cachoeira do Arari, que fica situada na maior ilha flúvio-marítima do mundo, a ilha do Marajó, no estado do Pará. A história de sua formação é bastante peculiar visto que, mesmo considerado um museu de caráter regional, foi pensando e formado por um padre jesuíta italiano que chegou à região na década de 1970, Giovanni Gallo.

Chegando ao Marajó, Gallo, como era conhecido, se encantou com as belezas naturais e culturais da região o que fez com que ele se aproximasse bastante da população local. A partir desse “encantamento” passou a percorrer a região atrás de estórias e histórias, como costumes, lendas, folclore, cultura material, dentre outros aspectos da cultura e da natureza amazônica.

Com a reunião dos objetos e da história da cultura do lugar, ele resolve montar um museu para valorizar a região e promover seu desenvolvimento. Assim surgiu o Museu do Marajó. Pode-se dizer que ele é uma junção de museu comunitário, eco-museu e de um grande gabinete de curiosidades, relembrando os museus etnográficos do século XIX, pois reúne objetos curiosos para serem apreciados com a pretensão de mostrar o “exótico”, expõe objetos interativos que além de serem apreciados, devem ser tocados e pegados. O acervo conta com uma exposição interna e externa. Assim que o visitante entra, adentra à primeira sala que é composta de peças arqueológicas marajoara encontradas na ilha, além de reproduções feitas por artesãos locais. São peças de cerâmica e objetos líticos sendo tangas, tigelas, vasos, estatuetas, pratos, caretas e urnas funerárias, além de inúmeros cacos cerâmicos. Parte do material arqueológico foi proveniente de doações de moradores da região que as encontravam por fazendas e de doações realizadas pelos próprios fazendeiros, além das incansáveis buscas feitas por Gallo.

Além das peças arqueológicas, o acervo conta com a exposição de peças contemporâneas como utensílios domésticos, cestaria, cabaças, jarros, cuias, objetos que denotam a religiosidade do lugar como imagem de santos e peças de rituais de pajelança, e também peças utilizadas à época da escravidão, sendo pratos e objetos de tortura. Além dos objetos que fazem parte da cultura material dos moradores da região, existem peças que representam aspectos da natureza amazônica como animais empalhados de várias espécies, peixes, peles de jacaré, cobras, dentre outros e animais com deformações genéticas, como animais com duas cabeças, por exemplo.

Algo que chama atenção no acervo do museu são os painéis interativos que Gallo designou de computadores. Em sua maioria são painéis e grandes caixas feitas de madeira com jogos que levam o visitante a obter conhecimentos sobre o meio ambiente e a cultura do chamado homem marajoara. A fotografia a seguir mostra o computador Assim falam os caboclos, que é uma espécie de jogo de adivinhações. O visitante vai puxando as fichas e vão sendo apresentadas charadas ou perguntas sobre o folclore, gíria e forma de falar dos moradores locais. As respostas ficam em outras fichas equivalentes. É como se fossem caixas de surpresas, montadas de forma didática e que precisam ser mexidas para serem descobertas.

A palavra de ordem é, portanto, interação entre o visitante e a exposição. Deve-se mesmo pegar na peça e não apenas contemplar, pois se não se pega nos jogos, não se descobre o “homem marajoara”. Esses jogos interativos mostram-se como a diferença e constituem uma peculiaridade da exposição, visto que não se conhece nenhum acervo nesses moldes na região, podendo mesmo ser considerado de vanguarda, pois a técnica de hands on atualmente é considerada contemporânea ou inovadora, mas já havia sido projetada por Gallo há cerca de trinta anos atrás. Um exemplo que aponta a atual importância dada a esse tipo de acervo que adota o hands on é o Museu da Língua Portuguesa, localizado em São Paulo e que repercute devido à interação exposição/público.

Como se pode observar, o museu é um espaço curioso, espécie de gabinete de curiosidades, repleto de “coisas” e peças a serem mexidas, reviradas e observadas. Além disso, espaço de interação, reflexão e conhecimento, visto que reúne peças de âmbito arqueológico, histórico e etnográfico. É uma espécie de gabinete de curiosidades que tem em vista aspectos educacionais, científico e interativo. Então, como definir o Museu do Marajó? Obviamente que não é objetivo do artigo classificar um espaço tão peculiar, mas vale ressaltar que apesar da singularidade do seu acervo, algumas de suas especificidades os aproximam dos chamados Eco-Museus, como frisou van Velthem (2005). Segundo a autora, esta categoria de museu localiza-se geralmente em áreas economicamente desfavorecidas e em comunidades que não contam com nenhum outro equipamento cultural, realidade vivenciada pelo museu. Além disso, uma das principais preocupações desse tipo de acervo fundamenta-se na relação homem e cultura e da população com sua região, o pressuposto principal do Museu do Marajó.

Sobre os Eco-Museus, segundo Martins, “... em lugar de estar a serviço dos objetos, o museu deveria estar a serviço dos homens. Em vez do museu “... de alguma coisa”, o museu “para alguma coisa”: para a educação, a identificação, a confrontação, a conscientização, enfim, um espaço para a comunidade.”. (Martins, 1999: 158). Para Gallo, a peça mais importante do museu sempre foi o homem. Desde seu princípio, ele pareceu estar interessado em formar uma conscientização da população local com vistas no reconhecimento de seu patrimônio. Elaborou projetos sociais com esse intuito.

Em meados de 1980 ele começou a fazer desenhos dos motivos contidos na cerâmica arqueológica e repassava às senhoras de Cachoeira para que elas bordassem os mesmos em roupas a fim de comercializá-las. Já em 1990 Gallo lança um livro com inúmeros motivos marajoara desenhados e fotografados para serem aplicados não apenas em roupas, mas no artesanato em geral com o objetivo de comercializá-los a turistas que visitavam Cachoeira do Arari (Gallo, 2005). A reprodução de cerâmica também está inserida nesse contexto. Aliás, desde essa época foram promovidos cursos com esse intuito. Atualmente existem oficinas de serigrafia, cerâmica, bordado e confecção de adornos como brincos, colares e pulseiras. Toda a produção tem em vista a utilização do grafismo contido na cerâmica arqueológica. O museu como representação de seu criador, Giovanni Gallo, acabou tornando-se uma instituição de importância, relevância e sobrevivência para muitas pessoas em Cachoeira do Arari. Isso porque foi a partir de Gallo e da criação desse espaço que muitas pessoas se profissionalizaram, aumentaram sua renda ou mesmo passaram a ter uma fonte de renda.

É importante lembrar que os produtos são voltados para o turismo, até porque é o turista que consome os objetos, este é o público visitante. Quando estive no município pude observar que a maior parte das pessoas vão à Cachoeira por saberem da existência desse museu. Isso evidencia que a instituição acabou virando referencial turístico. Mesmo fora do lugar, quando se refere o nome de Cachoeira do Arari, é comum a ligação com o Museu do Marajó, que acabou tornando-se atrativo. O museu está voltado basicamente ao turismo, mas seria importante se ele estivesse sendo mais utilizado como um espaço de educação patrimonial pelas escolas da cidade. As visitas das escolas ainda são pequenas com relação às visitas turísticas.

Com o passar do tempo tais motivos marajoara saíram dos objetos e lançaram-se às ruas. Em Cachoeira é comum se ver grafismos marajoara nos postes de iluminação pública, fachadas de casas e bancos das praças por quem percorre as principais ruas da cidade (Linhares, 2007).

A partir de então “inventa-se uma tradição” marajoara em Cachoeira. Antes da chegada de Gallo na cidade e da elaboração dos projetos, pouco se sabia sobre a importância dos achados arqueológicos e da preservação desse patrimônio para a história local. Alguns moradores diziam que conheciam ou já haviam escutado falar a respeito da existência de objetos “de índios que não mais viviam no local e que não eram vivos”, mas que os assustavam, e que hoje, já passam a reconhecer os mesmos objetos que os assustavam quando eram encontrados nos quintais de algumas casas pertos de sítios arqueológicos como um importante patrimônio, que deve ser reconhecido, preservado e valorizado.

Hoje todos querem mostrar que possuem uma identidade marajoara, estampando nas roupas, nas praças, nos bancos das igrejas e aos poucos na consciência social. Por “tradição inventada” entende-se “... um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica [que] visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica automaticamente, uma continuidade em relação ao passado. Aliás, sempre que possível, tenta-se estabelecer continuidade com um passado histórico apropriado.” (Hobsbawm, 2002: 12), como vem ocorrendo em Cachoeira.

Como se pode observar, a importância do museu foi e está sendo essencial para a formação de um pensamento crítico e da própria consciência histórica dos moradores do lugar, pois a partir de então, aos poucos, passaram a valorizar o patrimônio cultural da região. Eles começaram a perceber a importância que tinha todo aquele patrimônio que “brotava” nos sítios arqueológicos.

Segundo Martins (1999), para que museus desse âmbito germinem, faz-se necessário que as pessoas e moradores do lugar possam tomar consciência coletiva de seu patrimônio através da recuperação do passado como se deu com a re-valorização do patrimônio arqueológico e também dos objetos contemporâneos a partir dessa apropriação específica, a expositiva, devendo refletir o desenvolvimento cultural e econômico da região, conferindo dessa forma o caráter regional.

Mesmo enquadrando o museu no que se designa de Eco-museu, convém chamar a atenção aos limites das tipologias ou desse tipo de classificação visto que apresenta outras características que extrapolam as concepções de um Eco-museu, pois é um espaço de curiosidades, um lugar onde se encontram arraigados alguns aspectos da visão de mundo européia de seu criador e um museu interativo com técnicas de hands on.

Por isso não convêm defini-lo apenas enquanto Eco-Museu, mas quem sabe como um espaço de Curiosidades interativas da região. O importante é atentarmos para a importância de um museu que sobrevive há cerca de 30 anos em uma pequena localidade da Amazônia, Cachoeira do Arari, que sobrevive de projetos e da colaboração da comunidade, desde a limpeza até a concepção museológica de seu acervo. Não esquecendo que o museu e todo seu acervo é um legado histórico, antropológico, arqueológico e artístico de um pedaço da Amazônia: a ilha do Marajó. Pode ser um amplo espaço de pesquisa para a educação, a antropologia, a história, a biologia, a arqueologia, dentre outras ciências.

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Referências bibliográficas:

HOBSBAWM, Eric. “Introdução: A Invenção das Tradições” IN HOBSBAWM, Eric e TERENCE, Ranger (org.). A invenção das tradições. São Paulo, Editora Paz e Terra, 2002.
LINHARES, Anna Maria Alves. De caco a espetáculo: a produção cerâmica de Cachoeira do Arari (Ilha do Marajó, PA). Dissertação de mestrado. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. UFPA, 2007.
MARTINS, Maria Helena Pires. “Ecomuseu” IN COELHO, Teixeira (org.) Dicionário Crítico de Política Cultural: cultura e imaginário. São Paulo, Iluminarus, 1999.
GALLO, Giovanni. Motivos ornamentais da cerâmica marajoara: modelos para o artesanato de hoje. Cachoeira do Arari, PA, Museu do Marajó, 2005.
VAN VELTHEM, Lúcia Hussak. O Museu do Marajó. Belém, Museu Paraense Emílio Goeldi. 2005. (mimeo).
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(*) - Anna Maria Alves Linhares é cientista social e mestre em antropologia pela Universidade Federal do Pará (UFPA).

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terça-feira, 24 de novembro de 2009

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Lenda do jabuti e do veado. Eis a magnífica inteligência indígena... interpretem


“O pequeno jabuti foi procurar seus parentes e encontrou-se com o veado. O veado perguntou a ele: “Para onde que tu vais?” O jabuti respondeu. “Eu vou chamar meus parentes para virem procurar minha caçada grande, a anta”. O veado assim falou” “Então tu mataste a anta?! Vai; chama toda tua gente. Quanto a mim, eu fico aqui; eu quero olhar para eles”. O jabuti assim falou: “Então eu não vou mais; daqui mesmo eu volto; eu espero que a anta apodreça, para tirar seu osso para minha gaita. Está bom, veado; eu vou já”. O veado assim falou: “Tu mataste a anta; agora eu quero experimentar correr contigo”. O jabuti respondeu: “Então me espera aqui; eu vou ver por onde eu hei de correr”. O veado falou: “Quando tu correres por outro lado, e quando eu gritar, tu respondas”. O jabuti falou: “Me vou ainda”. O veado falou a ele: “Agora, vais demorar-te... Eu quero ver tua valentia”. O jabuti assim falou: “Espera um pouco ainda; deixa-me chegar à outra banda”. Ele chegou ali, chamou todos os seus parentes. Ele emendou todos pela margem do rio pequeno, para responderem ao veado tolo. Então assim falou: “Veado, tu já estás pronto?” O veado respondeu: “Eu já estou pronto”. O jabuti perguntou: “Quem é que corre adiante?” O veado riu-se e disse: “Tu vais adiante, miserável jabuti”.
O jabuti não correu; enganou o veado e foi ficar no fim.
O veado estava tranquillo, por fiar-se nas suas pernas.
O parente do jabuti gritou pelo veado. O veado respondeu para traz. Assim o veado falou: “Eis-me que vou, tartaruga do mato!” O veado correu, correu, correu, depois gritou: “Jabuti!” O parente do jabuti respondeu sempre adiante. O veado disse: “Eis-me que vou, ó macho!” O veado correu, correu, correu, e gritou: “Jabuti!” O jabuti respondeu sempre adiante. O veado disse: “Eu ainda vou beber água”. Aí mesmo o veado se calou: O jabuti gritou, gritou, gritou... Ninguém respondeu a ele. Então disse: Aquele macho pode ser que já morreu; deixa que eu vá ver a ele ainda.
O jabuti disse assim para seus companheiros: “Eu vou devagarinho vê-lo”.
Quando o jabuti saiu na margem do rio, disse: “Nem sequer eu suei”. Então chamou pelo veado. “Veado!” O veado nem nada lhe respondeu.
Os companheiros do jabuti, quando olharam para o veado, disseram. “Em verdade, já está morto”. O jabuti disse: “Vamos nós tirar o seu osso”.
Os outros perguntaram: “Para que é que tu o queres?”
O jabuti respondeu: “Para eu assoprar nele em todo tempo”.
“Agora eu me vou embora daqui. Até algum dia”

"O Selvagem" de Couto de Magalhães. Lenda de índios do tronco linguístico Tupi.

domingo, 22 de novembro de 2009

Livro revela a sexualidade da sociedade brasileira do século XIX

Edição de 22/11/2009

Sexual - Um diário indiscreto de Couto Magalhães, que administrou o Pará

'Um toque de voyeurismo. O diário íntimo de Couto de Magalhães (1880 - 1887)' é. o livro, tese de doutorado do historiador, professor da faculdade de história da UFPA, mestre e doutor em antropologia Márcio Couto Henrique, lançado recentemente no Rio de Janeiro e em Belém.

Mineiro de Diamantina. Um político importante para o Brasil na segunda metade do século XIX. Herói da Guerra do Paraguai. Este foi Couto de Magalhães que administrou as então províncias de Goiás, Mato Grosso, São Paulo e Pará, sob o cargo de presidente da província, o equivalente ao cargo de governador. O homem representado em fotografias, figuras e pinturas como um sujeito corajoso e imponente, revelou-se em seu diário, descoberto no Arquivo do Estado de São Paulo pela historiadora Maria Helena Machado, um hipocondríaco que desgostava das mulheres e do casamento 'à moda' século XIX e tinha sonhos eróticos com homens e garotos.

Couto de Magalhães era as duas coisas: tanto heróico quanto humano. 'Usei Couto de Magalhães como uma janela para estudar a sociedade brasileira da segunda metade do século XIX', esclarece o autor. Márcio destaca os dois principais fatos que fazem do político uma personalidade importante para a história do Brasil. 'Ele foi o primeiro intelectual a coletar informações sobre o folclore brasileiro. Publicou lendas indígenas, principalmente amazônicas, no livro ‘O selvagem’ (1876), a partir do qual desenvolvi a minha pesquisa do mestrado.' O segundo motivo foi sua atuação na Guerra do Paraguai, na qual venceu muitas batalhas, entre elas a de Corumbá, momento em que acabou com a posse dos paraguaios sobre o município de Mato Grosso do Sul.

Durante as pesquisas do mestrado, o escritor teve contato com o diário de Couto de Magalhães, publicado pela editora Cia. das Letras, em 1998. O documento trazia registros da vida pessoal do político escritos em português, inglês, latim e nheengatú (código linguístico inventado pelos missionários jesuítas para facilitar o processo de comunicação entre eles e os índios). Este último utilizado na descrição de sonhos eróticos minuciosamente relatados.

'Um toque de voyeurismo. O diário íntimo de Couto de Magalhães (1880 - 1887)' é um estudo sobre esta personalidade e a sociedade de sua época. 'Eu, o pesquisador, sou o ‘voyeur’, o que bisbilhota (Couto de Magalhães). Estudar a tragetória de Couto de Magalhães é colocar o herói em uma condição mais humana, de carne e osso.' O livro é uma das poucas teses de doutorado no Brasil baseada em um diário. 'O diário possui uma dimensão social. Ao falar sobre si mesmo, o autor fala sobre a sua época.'

Serviço

Livro 'Um toque de voyeurismo. O diário íntimo de Couto de Magalhães (1880 - 1887)' À venda na livraria Humanitas, no campus básico da UFPA, próximo à Biblioteca Central. Preço: R$ 45.

http://www.orm.com.br/oliberal/interna/default.asp?modulo=248&codigo=444291


OBS: Não gostei da reportagem, não gostei da escrita do texto. Escrita truncada. Jogo do contente: jornal de grande circulação no Norte do país e consequentemente maior divulgação do livro.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Respeite o próximo. Isso basta! Respeite a multiplicidade de vozes, cores e identidades!

Viva a cultura negra!

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Consciência Negra!

Semana da Consciência Negra. Respeitem a diferença! Repassem! Divulguem! Não tolerem, mas respeitem!




terça-feira, 17 de novembro de 2009

Pensamento de um grande amigo:

A busca pelo eu interior, torna efêmera a necessida infinita da plena realização.

Gilmar Matta.



Eis o Gilmar Matta. Não é primo de Roberto da Matta, mas é um antropólogo arretado! Território Quilombola. Concórdia do Pará. Comunidade São Pedro. Rio Bujarú. Foto: Alana Borges.


AMIGO, MIL FELICIDADES E PARABÉNS PELO SEU DIA! FELIZ ANIVERSÁRIO!!!!!!! ABRAÇOS E BEIJOS ANTROPOLÓGICOS PRA VOCÊ!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

domingo, 15 de novembro de 2009

Melhorei...

Semana começando e eu aqui sem sono... Depois de dia chato, dei uma guinada no meu humor. Boa semana para meus seguidores. Um cheiro bem paraense para todos! Com gostinho de açai...





Juro que essa semana eu termino de ler o outro livro de Balzac e por aqui "jogo" algumas de suas ideias.

Isso daqui está bem melhor do que Twitter...

As estrelas...


"Foram-se abrindo aos poucos as estrelas...
De margaridas lindos campos em flor!
Tão alto o Céu!... Pudesse ir colhê-lhas...
Diria algum se me tens amor.

Estrelas altas! Que se importam elas?
Tão longe estão... Tão longe deste mundo...
Trêmulo bando de distantes velas
Ancoradas no azul do céu profundo...

Porém meu coração quase parava,
Lá foram voando as esperanças minhas
Quando uma, dentre aquelas estrelinhas,

Deus a quie! do céu se despencou...
Com certeza era o amor que tu me tinhas
Que repentinamente se acabou!"

Mario Quintana

Triste...


Hoje eu queria um abraço bem forte. Só isso bastava...

Pela não ocupação de 1 pessoa em mais de 1 vaga em instituição Superior Pública.


UFPA posiciona-se sobre Lei Nº 12.089 recém aprovada

Agora é Lei, um estudante não pode ocupar duas vagas simultaneamente em Instituições Públicas de Ensino Superior (IPES). Nos últimos anos, após o resultado e a classificação dos calouros do PSS da UFPA, constatou-se que muitos dos estudantes que obtiveram o êxito da classificação também em outras IPES, como a Universidade do Estado do Pará (UEPA), Instituto Federal do Pará (IFPA) e a Universidade Federal do Pará (UFRA), optavam por cursar as duas Instituições.


Mas, a partir de agora, a situação mudou. No último dia 12 de novembro, o Diário Oficial da União (DOU) publicou a Lei N.º 12.089, de 11 de novembro de 2009, que “Proíbe que uma mesma pessoa ocupe duas vagas, simultaneamente, em Instituições Públicas de Ensino Superior”.


No último processo seletivo, somente nos cursos de Medicina da UFPA e Medicina da UEPA, cerca de 30 estudantes ocupam as duas vagas nas duas Instituições, mesmo sabendo que o diploma de ambas as IPES outorga o mesmo grau, o Bacharelado em Medicina.


A Lei se aplica aos estudantes que irão ingressar na UFPA em 2010. Após a constatação de que o estudante também ocupou vaga em outra Instituição Pública de Ensino Superior, como a UEPA, o Centro de Registros e Indicadores Acadêmicos (CIAC) convocará o aluno para optar pela vaga e, para isso, o estudante terá cinco dias úteis, conforme dispõe a Lei 12.089.


No caso de não comparecer no prazo ou não definir o curso em que deseja permanecer, a UFPA providenciará o cancelamento da matrícula, de acordo com os seguintes critérios:1) mais antiga, na hipótese de a duplicidade ocorrer em outra IPES;2)mais recente, na hipótese de a duplicidade ocorrer na UFPA.


O estudante que hoje ocupa duas vagas, simultaneamente, na UFPA e em outra IPES poderá concluir o curso regularmente.


Texto: Divulgação Pró-reitoria de Ensino e Graduação em 13.11.2009


http://www.portal.ufpa.br/imprensa/noticia.php?cod=3369

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Lendo e compartilhando com meus seguidores...


Quem ama inventa...

"Quem ama inventa as coisas a que amam...
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava...
E era um revôo sobre a ruinaria,
No ar atônito bimbilhavam sinos,
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressureições...
Um ritmo divino? Oh! Simplesmente
O palpitar de nossos corações
Batendo juntos e festivamente,
Ou sozinhos, num ritmo tristonho...
Ó! meu pobre, meu grande amor distante,
Nem sabes tu o bem que faz à gente
Haver sonhado... e ter vivido o sonho!"

Mario Quintana

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Eu escrevi um poema triste...

"Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel.

Mario Quintana - Quintana de bolso; Rua dos cataventos e outros poemas.



Acabei de trazé-lo da Feira...Lindo...

Hoje eu vou à Feira do Livro!!!!!!!!!!!!!!!! Muito bom!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Comprar, comprar, comprar!

terça-feira, 10 de novembro de 2009

De caco a espetáculo. Tudo começou assim...



“Um dia, seu Vadico, grande amigo e colaborador, chegou em casa com um embrulho. Sem
falar, depositou-o em cima da mesa. - O que é? – Aqui estão uns negócios que não prestam, como o senhor gosta. Gostei do cumprimento, porque era o reconhecimento do meu interesse para tudo o que é Marajó. Intrigado, apalpei com uma certa cautela aquele conjunto de negócios, desenrolei o papelão e descobri uma série de cacos de cerâmica. “Caco”, na linguagem marajoara, é exatamente o termo científico das peças arqueológicas. Naquele momento, vassoura na mão, apareceu a senhora da limpeza, espiando curiosa. – Será que prestam? Ela já tinha reparado o meu interesse, por isso só podia dar a única resposta possível, segundo a lógica marajoara. – Prestam, sim senhor. – Para quê? A mulher quase entrou em sinuca, no desespero de inventar uma justificativa decente. Foi só um instante. Feliz da vida explicou: - Para entulhar o quintal. Esqueci logo o quintal e fiquei contemplando, extasiado, aquelas amostras que pareciam fruto da coleta de um abençoado arqueólogo. Uma careta caprichada, uma série de risquinhos ingênuos como de criança que brinca com um espinho, uns fragmentos de decoração incisa e excisa, um jogo simétrico, a tentativa duma figura estilizada, um peixinho, um jaburu em vôo. De tudo um pouco, só coisa
fina”.


O homem que implodiu. Giovanni Gallo.

sábado, 7 de novembro de 2009

Bom, essa eu recebi por e-mail de uma amiga, Maria Célia. Gostei, pois viva o "Jogo do Contente" (Polianna)! A gente só se f*** mesmo né? Hahahahaha.



Sou grato...

À minha mulher,
por dizer que teremos cachorro-quente ao jantar,
porque ela está em casa comigo e não com algum outro não sei onde!

Á meu MARIDO,
esparramado no sofa como um purê de batata,
porque ele está comigo e não em algum boteco...

À ADOLESCENTE LÁ DE CASA,
que está reclamando por ter que lavar a louça,
porque isso significa que está em casa, e não nas ruas....

PELAS BRONCAS DO CHEFE,
POIS ISTO SIGNIFICA QUE ESTOU EMPREGADO....

PELA BAGUNÇA QUE RESTOU DEPOIS DA FESTA
PORQUE ISTO SIGNIFICA QUE ESTIVE RODEADO DE AMIGOS...

PELAS ROUPAS QUE ESTÃO FICANDO APERTADAS,
PORQUE ISSO SIGNIFICA QUE TENHO MAIS QUE O SUFICIENTE PARA COMER...

PELA MINHA SOMBRA QUE ME OBSERVA EM AÇÃO
PORQUE ISSO SIGNIFICA QUE ESTOU FORA, AO SOL...

PELA GRAMA QUE PRECISA SER CORTADA,
PELAS JANELAS QUE PRECISAM SER LIMPAS
E PELAS CALHAS QUE PRECISO CONSERTAR,
PORQUE ISSO SIGNIFICA QUE TENHO UMA CASA....

POR TODAS AS QUEIXAS QUE OUÇO CONTRA O GOVERNO
PORQUE ISSO SIGNIFICA QUE TEMOS LIBERDADE DE EXPRESSÃO...

PELA VAGA QUE ACHEI BEM NO FINAL DO ESTACIONAMENTO
PORQUE ISSO SIGNIFICA QUE POSSO CAMINHAR E QUE TENHO MEIO DE TRANSPORTE...

PELA CONTA MONSTRUOSA DE ENERGIA QUE PAGO
PORQUE ISSO SIGNIFICA QUE ESTOU SEMPRE CONFORTÁVEL...

PELA SENHORA DESAFINADA QUE CANTA ATRÁS DE MIM NA IGREJA
PORQUE ISSO SIGNIFICA QUE POSSO OUVIR...

PELA PILHA DE ROUPAS PARA LAVAR E PASSAR
PORQUE ISSO SIGNIFICA QUE TENHO ROUPA PARA VESTIR...

PELO CANSAÇO E MÚSCULOS DOLORIDOS AO FINAL DO DIA
PORQUE ISSO SIGNIFICA QUE FUI CAPAZ DE DAR DURO O DIA INTEIRO...

PELO ALARME QUE DESLIGO PELA MANHÃ !
PORQUE ISSO SIGNIFICA QUE CONTINUO VIVO...

E SOU GRATO PELOS ALOPRADOS QUE SÃO MEUS COLEGAS DE TRABALHO,
PORQUE TORNAM O TRABALHO INTERESSANTE E DIVERTIDO...

E, FINALMENTE, POR RECEBER E-MAILS DEMAIS,
pois isso significa que um monte de amigos pensa em mim!!!


OBS: Principalmente àqueles que adoram mandar um monte de corrente enchendo o saco. hehehehehe. Essa parte foi minha. Hahahahahaha.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Relendo, vi o quanto o poema é lindo.


PRESENÇA

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.

Mário Quintana.