sábado, 26 de fevereiro de 2011

Yulunga - Dead can dance

Yulunga de Dead can dance muito me encanta. Na realidade, tudo nele me encanta: seu ritmo, seu som, suas cores, sua fotografia, sua ideia. Sinto uma sincronia, sincronia entre homens, mulheres, cultura e natureza, que tantas vezes não temos ou não enxergamos cotidianamente. São passos perfeitos. É antropológico. Isso faz com que me encante ainda mais pela ideia e pelo som. Um presentaço para meus leitores e seguidores. Deve ser sentido, pensado, não apenas escutado. Delícia de som. Também  estamos "De ouvidos na cultura".

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sábado, 22 de janeiro de 2011

Encontros antropológicos promovem "grandes encontros antropológicos".

Para um amigo. Para um irmão.
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Era julho de 2003.

Sou cientista social, antropóloga, estudiosa da cultura e do comportamento humano. Observo-o academicamente e não academicamente. Sempre gostei de participar de encontros, seminários, eventos e palestras da minha área. Quase toda vez que tem algum encontro em Antropologia eu estou por lá. Na época de minha graduação fui bolsista de iniciação científica no Museu Paraense Emílio Goeldi na área da Antropologia e sempre apresentava o resultado de meus trabalhos em eventos. Na época tive conhecimento de um encontro em Recife (Pernambuco) da Associação Brasileira de Antropologia (ABA). Prontamente fiz minha inscrição em um Grupo de Trabalho intitulado "Antropologia da Arte", salvo engano. Fiz inscrição em outro grupo que não me recordo nesse momento. Meses depois recebi via e-mail o resultado: ambos aceitaram meu trabalho de pesquisa sobre a cultura material indígena Karajá, as bonecas Karajá. Um trabalho lindo, lindo já postado aqui nesse blog.
Como eu era uma mera estudante, tinha pouco dinheiro para viagens, mas sempre me unía ao CA (Centro Acadêmico) para buscar recursos que pudessem viabilizar minhas empreitadas antropológicas. Íamos para o sinal de trânsito pedir dinheiro, vendíamos caipirinhas em festinhas na universidade e etc, etc, etc. Assim eu consegui. Lá eu ia mais uma vez para outro grande encontro de Antropologia.
Na realidade eu sempre unia encontros e passeios, pois sempre gostei de viagens e de conhecer culturas diferentes da que vivo. Sempre "De olho na cultura"...
Fui em um ônibus lotado de estudantes de várias áreas das Ciências Humanas, mas na sua grande maioria eram alunos das Ciências Sociais. Minha companheira nessas viagens antropológicas na época era Tay Gama, que hoje mora em São Paulo e trabalha em uma empresa de arqueologia. Resolvemos procurar um hotel para nos hospedarmos em Recife. Procuramos o hotel via internet.
Encontramos.
Hotel de preço bom, bonito, confortável e super aconchegante. Fechamos o contrato.
Tay me disse que iríamos dividir apartamento com outras pessoas. No dia da viagem me apresentou uma dessas pessoas:

- Anna, deixa eu te apresentar. Esse é o Jô.
-Oi Jô, tudo bom?
-Tudo. Viajaremos juntos.
-Legal.

A viagem aconteceu. Super cansativa, visto que enfrentamos quase 3 dias de estrada. A grande vontade era da chegada no hotel super confortável. Chegamos no terminal rodoviário e pegamos um trem rumo ao hotel que ficava no bairro de "Peixinhos". Ao chegarmos no final da estação, pegamos um táxi. Quando chegamos no hotel, o susto: o hotel ficava ao lado de um terreno abandonado, quartos pequenos e escuros, sem aquela linda piscina que vimos nas fotos, soturno e excêntrico demais para meu gosto, ou seja, fomos enganados. Um misto de raiva e indignação percorreu nossas veias. O que fizemos? Fomos conhecer a cidade e procuramos outro hotel no dia posterior.
Eram 23h e saimos. Nessa noite fomos a uma boate de hip hop, conhecemos o Centro Antigo da cidade e amanhecemos dançando Bob Marley na orla do Centro Antigo de Recife. Precisávamos né?
Passei a olhá-lo de modo diferente. De apenas um nome, passou a ser moreno, baixinho, extrovertido, extremamente irônico, simpático e muito, mas muito sarcástico. Todos esse atributos chamaram minha atenção.
Tínhamos um quê de independência e isso nos ligava ainda mais.
Na época havia um grupinho muito apaixonado por uma tal de "Antropologia visual". Aquilo me assustava um pouco, pois tudo, absolutamente tudo era fotografado por esse grupinho, que eu não fazia parte. Meu lance sempre foi cultura material e "Antropologia da Arte".

- Olha, não quero minha imagem vinculada em lugar nenhum. Eu processo se souber de minha imagem em algum lugar ou com alguma vinculação pública.

As risadas, os porres, o jeito sarcástico, as conversas sérias e tolas (na sua grande maioria, mas sempre com altas pitadas de humor inteligente), os estresses entre os colegas no quarto do hotel (que já era em Olinda a beira-mar depois da decepção via internet), as fugidas dos pivetes nas ruas de Olinda, os dias amanhecidos naquela cidade maravilhosa, as fofocas sobre os palestrantes e coordenadores das mesas, os flertes e paqueras, as danças, a companhia. Isso bastou.
Parece que o cupido chegou. Mas daqueles cupidos que chegam para aqueles amores para sempre, não amores de verão.
O encontro acaba. Finalizamos com chave de prata (minha preferência), numa festa linda, onde dançamos até o amanhecer danças de roda, danças negras, afoxé. Foi tudo mágico e antropológico.
De volta à realidade. Nos afastamos. Ele era de História e eu era das Ciências Sociais, ele era de um mundo e eu era de outro. Mundos que nos unem apenas em encontros, festinhas e tal. Mas, eu não disse que o cupido chegou para aqueles amores que parecem que durarão para sempre?
Nos afastamos, mas foi inevitável. Algo nos uniu de novo que não lembramos de jeito nenhum o que foi realmente. Mas nem precisa ser lembrado.
Em um desses reencontros:
- Anna, sabe lá no hotel em Olinda?
- Sei.
- Pois é, tirei foto de tuas calcinhas penduradas enquanto secavam. A fotografia ficou muito boa, cara...
- Hã??
- Sim.

Pensei: cara, que abuso. Pensei de novo: esse povo que é metido a "mexer" em "Antropologia visual" é foda...
Depois desse diálogo, muitas coisas mudaram. Senti que minha vida estava toda com esse criatura. Imagina alguém com fotos de tuas calcinhas?? O que mais essa pessoa poderia querer de mim? Já estava com toda minha vida...
A partir desse diálogo, todos os nossos encontros iniciavam assim:

- Eu quero a foto de minhas calcinhas. Pode ser?
- Hahahaha! Eu vou te dar. Calma.
- Calma?? São minhas calcinhas, cara...
- Hahaha! Tenho que revelar as fotos.

Por que eu não processei essa criatura??? Pensei.
Passamos a nos encontrar mais, a nos ver mais, a nos falar mais e a nos sentir mais.
Ano passado estive na sua casa e relembrei:

- Cadê a fotografia?
- Está aqui.

Não era a fotografia, mas o negativo da imagem. No fundo eu as via. Mas não foram reveladas. Bem ao estilo dele. Sempre com atrasos de 40 minutos... Acho que até hoje não foi revelada, mas ela pôde revelar, dentre outras coisas, a promoção de um encontro que não se esquecerá nunca mais. Grata surpresa me proporcionou Recife.
Descobri também que ele é apaixonado por uma das maiores intérpretes desse país (que também eu sou apaixonada) e que uma música interpretada por essa cantora nos unia ainda mais:

"Pois se é noite de completa escuridão
Provo do favo de teu mel
Cavo a direta claridade do céu
E agarro o sol com a mão..."

Já se foram 8 anos. Mas parece amor de mil vidas, como diria Dulce Quental.
Quando me sinto em completa escuridão, provo do favo de teu mel e prontamente cavo a direta claridade do céu.
Nem lembro o que líamos, mas é o que menos importa.

Por isso que é sempre bom ficarmos "De olho na cultura", pois encontros antropológicos promovem "grandes encontros antropológicos".
Continuem "De olho na cultura".




sábado, 8 de janeiro de 2011

Da dádiva e, em particular, da obrigação de retribuir.

Estou a ler o livro Sociologia e Antropologia, mais especificamente o artigo "Da dádiva e, em particular, da obrigação de retribuir" escrito por Marcel Mauss. Acredito ter lido o artigo mais de 5 vezes, todas as vezes por motivos acadêmicos. Leio mais uma vez pelo mesmo motivo, mas nunca deixo de surpreender-me com o texto, pois o sistema de prestações e contraprestações é algo muito recorrente em nosso cotidiano.
Gosto muito do poema do Eda escandinavo (estrofes de Havamál) que inicia o referido artigo:

"Nunca encontrei homem tão generoso
e tão liberal para alimentar seus hóspedes
que receber não fosse recebido, nem homem tão (falta o adjetivo) de seus bens
que receber de volta lhe fosse desagradável,

Com armas e vestes
devem os amigos agradar-se;
cada um o sabe por si mesmo (por sua própria experiência). Aqueles que retribuem mutuamente os presentes são amigos por mais tempo
se as coisas conseguem tomar bom aspecto.

Deve-se ser amigo
para com o amigo
e retribuir presente com presente;
deve-se ter
riso por riso
e logro por mentira.

Tu o sabes: se tens um amigo
no qual tens confiança
e queres obter bom resultado,
é preciso misturar tua alma à dele
e trocar presentes
e visitá-lo amiúde.

Mas se tens um outro
de quem desconfias
se queres chegar a bom termo,
e preciso dizer-lhe belas palavras,
mas ter pensamentos falsos
e retribuir logro com mentira.

É assim com aquele
em quem não tens confiança
e de cujos sentimentos suspeitas,
é preciso sorrir-lhe,
mas falar sem coração:
os presentes retribuídos devem ser semelhantes aos presentes recebidos.

Os homens generosos e valorosos têm a melhor vida;
não têm medo algum.
Mas um poltrão tem medo de tudo;

O avaro tem sempre medo dos presentes."
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Em vários momentos do texto, Marcel Mauss enumera exemplos de sociedades que trocam bens, presentes e dádivas entre si. O autor trata principalmente dos Polinésios e Melanésios. Segundo Mauss, tais dádivas são sistemas de prestações totais. Aquele grupo que recebe determinado bem tem sempre a obrigação de retribuí-lo sob pena de sofrer alguma sanção. Ele trata do potlatch e do Kula, principalmente.
Tanto em uma sociedade como na outra, destroem-se objetos para o outro grupo com o objetivo de mostrar poder e valor. Se oferece presentes, pulseiras, braceletes e outras riquezas. Geralmente se oferece bens "gratuitamente", ou seja, sem a intenção de receber de volta. Mas na realidade, os grupos que recebem os presentes, precisam retribuí-los, e aqueles que dão, sempre esperam o retorno. Se não os fizer, se desfaz os laços entre os grupos e demonstra-se avareza e não poderio perante o outro. Outra coisa importante entre os diversos exemplos mostrados por Mauss é a "obrigação" de receber o presente. Se algum grupo não receber determinado presente que for oferecido por outro grupo, demonstra término de aliança ou quebra de contrato.

Malinowski em um dos rituais do "Kula" nas Ilhas Trobriandesas, onde troca-se valiosas pulseiras e braceletes, principalmente.

É interessantíssimo ler as etnografias e ver a infinidade de exemplos desses sistemas de prestações e contraprestações.
Não é à toa que logo no início do artigo, Mauss fez questão de colocar o referido poema escandinavo. Algumas de suas estrofes demonstram bem o que está por detrás desses rituais e trocas intertribais. O verso "os presentes retribuídos devem ser semelhantes aos presentes recebidos" mostra o quanto todos os bens que determinada sociedade recebe deve ser retribuido a altura ou ainda melhor.
Será que não é assim também em nossa sociedade? Quando recebemos um presente de um amigo ou parente não sentimos necessidade de retribuí-lo? Obviamente que sentimos essa necessidade se temos afinidades com aquele sujeito, pois se não temos, provavelmente não retribuiremos e o sujeito que deu o presente sente que a aliança foi desfeita ou não terá continuidade. Marcel Mauss tratou disso.
"O avaro tem sempre medo dos presentes". Aquela pessoa que tem dificuldade de retribuir um presente, um afeto, um amor, um sorriso ou um abraço é alguém avarento. Por que então querer um presente já que terei de retribuí-lo? Prefere não receber algo para não ter que prestar contas daquilo.
É bacana ler esse artigo e ver como muitas questões que envolvem esse sistemas analisados por Mauss podem ser vistos na nossa sociedade.
Toda "coisa" recebida tem um hau, uma essência, ou seja, um valor espiritual que nos ligam uns aos outros. Marcel Mauss vai chamar de vínculo espiritual que travamos com aqueles que nos dão um presente e que retribuimos depois de um tempo. Recusar dar, negligenciar convidar, assim como recusar receber, equivale a declarar guerra, é recusar aliança e comunhão.
Então muito cuidado com os vínculos que vocês estabelecem, meus leitores. Se não quer ter um vínculo espiritual com alguém, evite presentear. Ou se você quer fortalecer a comunhão com um grupo ou alguém, retribua aquele afeto, aquele carinho ou aquele presente. Mas não esqueça: precisa ser uma retribuição equivalente ou maior do que aquilo recebido.
Fiquem de "Olho na cultura" e nos contratos que vocês estabelecem entre si, hein?


















terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Balanço de 2010.

Faz tempo que meu blog não é destinado à postagens de cunho pessoal. Geralmente faço postagens acadêmicas, de artigos, teses e etc. Fico literalmente de "Olho na cultura".  Mas lembro que uma das últimas postagens que fiz desse teor nesse espaço foi exatamente na virada do ano de 2009 para 2010. Fiz um breve balanço do que havia feito no ano que estava terminando. Agora pretendo fazer o mesmo, afinal de contas é um rito de passagem importante em nossas vidas. Aliás, todos os rituais de passagem são importantes para a vida em sociedade.
Ratifico algumas coisas e modifico outras com relação a última postagem que fiz. Continuo considerando esses rituais (Natal e "Virada de ano") como banais, por mais que sejam importantes para a perpetuação social. Mas eu os acho banais por questões psicológicas. As lembranças que tenho desses rituais da época de minha infância não são das melhores. Por isso não os faço como algo tão cristão ou cheio de emoção como a maioria das pessoas fazem. Quando cheguei na adolescência, passei a fazer dos dois rituais de passagem verdadeiras esbórnias. Acredito que era para esquecer o que havia passado ou tentar fazê-los diferente. Hoje já sou mais madura e os encaro de maneira bem diferente, também. Esse ano já farei "festinha" de Natal em homenagem a minha mãe, que se sente só por conta do falecimento de meu pai e por conta da vinda de dois irmãos meus, dos três que tenho, aqui para Belém. Já sei lidar melhor com traumas do passado. Participarei dos rituais lembrando que em minha vida pessoal muitas coisas aconteceram.
Eu e meu companheiro adquirimos nossa independência doméstica e continuamos crescendo enquanto casal. A rotina pesa em qualquer situação, mas parece que sabemos lidar com ela, a priori. Independentemente da forma. Ele é uma pessoa importante na minha vida: é meu cia, que está do meu lado, que não joga comigo, que me escuta, que me compreende, que enxuga minhas lágrimas, que as estimula... é meu cia em sentido pleno. Márcio, eu te amo.
Na vida profissional e acadêmica, dei passinhos curtos, mas que foram e serão significativos.
Não é fácil ser professor em um país que pouco valoriza ou se importa com a educação. Não é e nem sei se será tão cedo prioridade do Estado investir nela. Por conta disso, eu sempre digo que ser professor nesse país é ser herói. Eu sou extremamente utópica e continuo achando que as poucas palavras que dou aos meus alunos (sou professora de Sociologia), podem criar sementes que germinarão no futuro. Por isso, faço questão de continuar trabalhando com adolescentes, que de uma forma ou de outra, são o futuro desse país. A única coisa que gostaria é de ter um sobre peso menor de trabalho e mais dignidade enquanto profissional. Por conta disso, prestei concursos para outras instituições e devido aos estudos e esforços, fui super bem classificada em uma instituição pública de ensino Federal. Espero se convocada.
Infelizmente não farei meu doutorado esse ano, e provavelmente não será onde moro. Pena que nas universidades públicas, assim como em outros setores, o velho e conhecido "QI" ou disputas ideológicas e políticas façam com que bons alunos e/ou profissionais não estejam ali dentro dos muros dos "semi-deuses". Não aprofundarei a questão, afinal de contas essa minha postagem está sendo muito mais um desabafo e um balanço do que qualquer outra coisa. Meia palavra basta. Acho.
Espero que em 2011 eu seja melhor profissional, cia, amiga, filha e irmã do que fui em 2010. Conheci novas pessoas, me afastei de algumas e continuarei na eterna busca pelo "belo". Vou procurar aquilo que me faz bem, que me traz coisas boas e que me sustenta enquanto Ser Humano. Como é difícil viver nesse mundo cruel. Mundo de jogos, vaidades, intrigas. Infelizmente as pessoas ainda usam o próximo, seja por carência, por vaidade ou sei lá o quê, mas eu não perderei a ternura, jamais.
Finalizo o desabafo/balanço mandando todas as vibrações para meu pai, onde quer que ele esteja, o homem que me fez. Eu sou a mulher do jeitinho que sou a partir da imagem dele. Às vezes até me acho meio homem por conta disso, mas o vigor, a força, a mulher batalhadora e forte é super bem casada com a vaidade, a ternura, a sensibilidade e o carinho, atributos culturalmente atribuídos às mulheres. Acho que é por aí.


Depois eu volto "De olho na cultura".

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Calem a boca nordestinos!

Fui duramente criticada por pessoas da região sudeste quando postei o texto abaixo em fóruns de discussão. Traduzindo as críticas: disseram que eu estava sendo tão preconceituosa quanto as pessoas da região sul e sudeste. Não acredito que eu tenha sido preconceituosa, apenas senti o texto emotivamente. Lembrei de quando Clifford Geertz, antropólogo norte amerciano, diz que nós, seres humanos, somos "essencialmente" (culturalmente) etnocêntricos e como temos dificuldade de nos desprendermos de nossas pré-noções, assim como temos dificuldade de termos alteridade. Sou filha de índia piauiense e preto maranhanense. De quebra, nasci na Amazônia, onde vivo até hoje. Sempre senti na "pele" o preconceito vinculado à ambas regiões que eu tenho ligações genéticas e afetivas e provavelmente esse seja o motivo de ter me identificado, em partes, com o texto abaixo. Infelizmente fui interpretada erroneamente. Não tive a intenção de ser grosseira com as pessoas, até porque adoro esses lugares também, mas não aguento mais ver pretos e índios seram chamados de vagabundos até mesmo por intelectuais. Fazer o quê? Além disso, é triste ver tanta miséria nas duas regiões por conta de questões históricas criadas a partir de um colonialismo imposto dentro do nosso próprio país, o país do "mito da democracia racial". O autor do texto deve ter escrito em um momento de catarse? Pode. Só acho exagero dizerem que o texto é xenófobo e preconceituoso. Pimenta no olho alheio é refresco. Acho que é por aí.
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Calem a boca, nordestinos!!


A eleição de Dilma Rousseff trouxe à tona, entre muitas outras coisas, o que há de pior no Brasil em relação aos preconceitos. Sejam eles religiosos, partidários, regionais, foram lançados à luz de maneira violenta, sádica e contraditória. Já escrevi sobre os preconceitos religiosos em outros textos e a cada dia me envergonho mais do povo que se diz evangélico (do qual faço parte) e dos pilantras profissionais de púlpito, como Silas Malafaia, Renê Terra Nova e outros, que se venderam de forma absurda aos seus candidatos. E que fique bem claro: não os cito por terem apoiado o Serra, outros pastores se venderam vergonhosamente para apoiarem a candidata petista. A luta pelo poder ainda é a maior no meio do baixo-evangelicismo brasileiro. Mas o que me motivou a escrever este texto foi a celeuma causada na internet, que extrapolou a rede mundial de computadores, pelas declarações da paulista, estudante de Direito, Mayara Petruso, alavancada por uma declaração no twitter: Nordestino não é gente. Faça um favor a SP, mate um nordestino afogado!?. Infelizmente, Mayara não foi a única. Vários outros brasileiros também passaram a agredir os nordestinos, revoltados com o resultado final das eleições, que elegeu a primeira mulher presidentE ou presidentA (sim, fui corrigido por muitos e convencido pelos amigos Houaiss e Aurélio) do nosso país. E fiquei a pensar nas verdades ditas por estes jovens, tão emocionados em suas declarações contra os nordestinos. Eles têm razão! Os nordestinos devem ficar quietos! Cale a boca, povo do Nordeste! Que coisas boas vocês têm pra oferecer ao resto do país? Ou vocês pensam que são os bons só porque deram à literatura brasileira nomes como o do alagoano Graciliano Ramos, dos paraibanos José Lins do Rego e Ariano Suassuna, dos pernambucanos João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira, ou então dos cearenses José de Alencar e a maravilhosa Rachel de Queiroz Só porque o Maranhão nos deu Gonçalves Dias, Aluisio Azevedo, Arthur Azevedo, Ferreira Gullar, José Louzeiro e Josué Montello, e o Ceará nos presenteou com José de Alencar e Patativa do Assaré e a Bahia em seus encantos nos deu como herança Jorge Amado, vocês pensam que podem tudo? Isso sem falar no humor brasileiro, de quem sugamos de vocês os talentos do genial Chico Anysio, do eterno trapalhão Renato Aragão, de Tom Cavalcante e até mesmo do palhaço Tiririca, que foi eleito o deputado federal mais votado pelos, pasmem, PAULISTAS!!! E já que está na moda o cinema brasileiro, ainda poderia falar de atores como os cearenses José Wilker, Luiza Tomé, Milton Moraes e Emiliano Queiróz, o inesquecível Dirceu Borboleta, ou ainda do paraibano José Dumont ou de Marco Nanini, pernambucano. Ah! E ainda os baianos Lázaro Ramos e Wagner Moura, que será eternizado pelo carioca (?) Capitão Nascimento, de Tropa de Elite, 1 e 2. Música? Não, vocês nordestinos não poderiam ter coisa boa a nos oferecer, povo analfabeto e sem cultura?Ou pensam que teremos que aceitar vocês por causa da aterradora simplicidade e majestade de Luiz Gonzaga, o rei do baião? Ou das lindas canções de Nando Cordel e dos seus conterrâneos pernambucanos Alceu Valença, Dominguinhos, Geraldo Azevedo e Lenine? Isso sem falar nos paraibanos Zé e Elba Ramalho e do cearense Fagner? E Não poderia deixar de lembrar também da genial família Caymmi e suas melofias doces e baianas a embalar dias e noites repletas de poesia?Ah! Nordestinos? Além de tudo isso, vocês ainda resistiram à escravatura? E foi daí que nasceu o mais famoso quilombo, símbolo da resistência dos negros à força opressora do branco que sabe o que é melhor para o nosso país. Por que vocês foram nos dar Zumbi dos Palmares? Só para marcar mais um ponto na sofrida e linda história do seu povo? Um conselho, pobres nordestinos. Vocês deveriam aprender conosco, povo civilizado do sul e sudeste do Brasil. Nós, sim, temos coisas boas a lhes ensinar. Por que não aprendem conosco os batidões do funk carioca? Deveriam aprender e ver as suas meninas dançarem até o chão, sendo carinhosamente chamadas de cachorras. Além disso, deveriam aprender também muito da poesia estética e musical de Tati Quebra-Barraco, Latino e Kelly Key. Sim, porque melhor que a asa branca bater asas e voar, é ter festa no apê e rolar bundalelê! Por que não aprendem do pagode gostoso de Netinho de Paula? E ainda poderiam levar suas meninas para um dia de princesa (se não apanharem no caminho)! Ou então o rock melódico e poético de Supla! Vocês adorariam!!! Mas se não quiserem, podemos pedir ao pessoal aqui do lado, do Mato Grosso do Sul, que lhes exporte o sertanejo universitário, coisa da melhor qualidade! Ah! E sem falar numa coisa que vocês tem que aprender conosco, povo civilizado, branco e intelectualizado: explorar bem o trabalho infantil! Vocês não sabem, mas na verdade não está em jogo se é ou não trabalho infantil (isso pouco vale pra justiça), o que importa mesmo é o QUANTO esse trabalho infantil vai render. Ou vocês não perceberam ainda que suas crianças não podem trabalhar nas plantações, nas roças, etc. porque isso as afasta da escola e é um trabalho horroroso e sujo, mas na verdade, é porque ganha pouco. Bom mesmo é a menina deixar de estudar pra ser modelo e sustentar os pais, ou ser atriz mirim ou cantora e ter a sua vida totalmente modificada, mesmo que não tenha estrutura psicológica pra isso, mas o que importa mesmo é que vão encher o bolso e nunca precisarão de Bolsa-família, daí, é fácil criticar quem precisa! Minha mensagem então é essa: Calem a boca, nordestinos! Calem a boca, porque vocês não precisam se rebaixar e tentar responder a tantos absurdos de gente que não entende o que é, mesmo sendo abandonado por tantos anos pelo próprio país, vocês tirarem tanta beleza e poesia das mãos calejadas e das peles ressecadas de sol a sol. Calem a boca, e deixem quem não tem nada pra dizer jogar suas palavras ao vento. Não deixem que isso os tire de sua posição majestosa na construção desse povo maravilhoso, de tantas cores, sotaques, religiões e gentes. Calem a boca, porque a história desse país responderá por si mesma a importância e a contribuição que vocês nos legaram, seja na literatura, na música, nas artes cênicas ou em quaisquer situações em que a força do seu povo falou mais alto e fez valer a máxima do escritor: O sertanejo é, antes de tudo, um forte!? Respeitemos todos os povos, raças, tribos e nações! (fiz alteração na última frase.)
Fonte: http://www.crerepensar.com.br/index.phpoption=com_content&task=view&id=204&Itemid=26





sábado, 9 de outubro de 2010

Até Deus votou em Plínio de Arruda!

Diante de tanta hipocrisia, até Deus votou em Plínio de Arruda. Foram tantas opiniões contraditórias e propostas sem nexo dos adversários no primeiro turno que Deus não aguentou e votou em Plínio, candidato que ele considerava mais preparado. Rsrs. Em quem será que ele votará no segundo turno? Estou curiosa...

sábado, 2 de outubro de 2010

"Olhando Belém, enquanto uma canoa desce um rio..." Nilson Chaves.


Vista do "Teatro da Paz", Pça da República, centrão da cidade.

É muito bom quando escutamos pessoas que moram no "Brasil" (sul e sudeste) falarem bem de Belém e do Norte de uma forma geral. Geralmente, vincula-se imagens depreciativas à região Amazônica. De uma forma geral usam alguns atributos sui generis: "terra sem lei", "terra de índio" (como se índio não prestasse), "terra aonde os jacarés andam na rua", "terra sem tecnologia" e assim por diante. Sou da Amazônia, nascida em Macapá. Pouco conheço minha terra, por isso me considero paraense e sou completamente apaixonada por Belém, cidade que me abriga há cerca de 21 anos. Aqui tem cheiro bom, tem cultura transbordando, tem gente bonita, tem boa música, tem gente inteligente, tem negro, tem branco, tem índio, tem gente. Não admito que falem mal do lugar que moro. Não admito isso apenas por ser antropóloga, mas por amar essa cidade, que é gostosa de viver.
Estou escrevendo essa postagem porque recebi por e-mail um texto de um escritor do "Brasil" chamado Zuenir Ventura. Esse texto me fez repensar muitas coisas que ouço de pessoas que migram do "Brasil" para cá. Antes de conhecerem Belém a rotulam com uma imagem preconcebida e depois que chegam, se surpreendem. Alguns se apaixonam pela terra, pelas pessoas, pelo cheiro e pelo sabor antropologicamente maravilhoso que existe por aqui. Leiam o texto e sintam vontade de conhecer a cidade. Tenho certeza que serão bem recebidos. Belém, eu te amo!!!!

Pça. Batista Campos. Bem ao ladinho de minha casa.

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Só vendo (Zuenir Ventura)



Acostumados com o clichê preconceituoso que acredita não haver vida inteligente fora do eixo Rio-São Paulo, nos surpreendemos quando encontramos alguma atividade cultural em cidades do chamado "interior" ? o "centro" somos nós, claro. Por exemplo: onde é possível reunir cerca de 650 mil pessoas, um terço dos moradores, para tratar de um assunto meio fora de moda, a leitura? Pois acabo de ver o fenômeno em Belém, na XIV Feira Pan-Amazônica do Livro, um dos três principais eventos do gênero no Brasil, este ano dedicada à África de fala portuguesa. Houve shows com Gilberto Gil, Lenine, Emílio Santiago, Luiza Possi, mas o des taque foram os R$30 milhões faturados com a venda de 500 mil volumes, superando, segundo os organizadores, a Bienal do Rio.

Há cidades brasileiras que só vendo. A capital do Pará é uma delas. Além de ser uma das mais hospitaleiras do país, gosta de seu passado e é hoje um exemplo de como revitalizá-lo. Já escrevi e repito que a intervenção que o arquiteto Paulo Chaves fez no cais da cidade, transformando armazéns e galpões na monumental Estação das Docas, é uma obra que não deve nada à que foi realizada em Barcelona ou Nova York (o prefeito Eduardo Paes devia ir lá ver). Outro genial exemplo de reaproveitamento é o centro onde se realiza a Feira, o Hangar, um gigantesco espaço que antes, como diz o nome, servia de estacionamento para aviões.

E não fica nisso. Há roteiros culturais como o do núcleo Feliz Lusitânia e seu Museu de Arte Sacra, onde se encontram uma Pietá toda em madeira, o São Sebastião de cabelos ondulados e a famosa N. S. do Leite, com o seio esquerdo à mostra dando de mamar. Sem falar nos museus do Encontro e de Gemas do Pará, e numa ida a Icoaraci para ver as cerâmicas marajoara, tapajônica e rupestre.

Para quem gosta de experiências antropológicas, recomenda-se ? além dos 48 sabores regionais, a maioria, do sorvete Cairu ? uma manhã no mercado Ver-o-Peso, onde me delicio nas barracas de banhos de cheiro lendo os rótulos: "Pega não me larga", "Amansa corno", "Afasta espírito", "Chora nos meus pés". Com destaque para o patchuli, que a vendedora me diz ser o odor de Belém. Mas antes deve-se passar pela área dos peixes: douradas, sardas, tucunarés, enchovas, piranhas, tará-açus. "Esse aqui é o piramutaba", vai me mostrando o nosso guia, o cronista Denis Cavalcanti; "aquele é o mapará, olh a o tamanho desse filhote".

Desta vez, o ponto alto da visita foi uma respeitável velhinha fazendo o comercial do Viagra Amazônico para mim e o Luis Fernando Verissimo: "O sr. dá três sem tirar, e depois ainda toca uma punhetinha". Isso com a cara mais séria do mundo, sem qualquer malícia, como se estivesse receitando um remédio pra dor de cabeça. Só vendo.
 
                    Mercado "Ver-o-Peso"

                                                                                                             Estação das Docas

Só vendo...

       














                  Indiazinha Karajá vive no Mato Grosso. Está aqui representanto a beleza indígena da Amazônia.